Sexta-feira passada viajei para Maceió-AL para participar da VII Assembléia Nacional dos Estudantes Livre (ANEL). Desde o meu ingresso na universidade, no ano passado, estabeleci um relacionamento distante com o movimento estudantil. Como a maioria dos meus colegas, considerava essa "politicagem" um desperdício de tempo e esforço, algo que só cabia àquele pessoal de humanas que não tinha muito o que estudar e ficava procurando motivo para fazer baderna. Com o passar do tempo, fui percebendo que nem todos ali eram "rebeldes sem causa", que algumas pessoas realmente acreditavam em um mundo diferente e estavam lutando por isso. Sei que para muitos essa coisa de acreditar em um mundo melhor soa muito utópico, mas não estou falando apenas em questões políticas e econômicas, mas em liberdade. A liberdade que as pessoas deveriam ter de amar e demonstrar seus sentimentos, a liberdade de manter o cabelo como bem desejar, a liberdade de ser como quiser. Aos poucos, nos últimos meses, fui me aproximando da ANEL por dois motivos principais: a disposição da entidade em agregar pessoas à luta e a coerência entre o discurso e as ações. Enquanto a ANEL promovia espaços de discussão que buscavam envolver todos os alunos da universidade, independente dos cursos, a UNE não se manifestava sequer para se apresentar aos seus representados. Enquanto a ANEL defende a educação pública e de qualidade, tanto no discurso quanto em atos, manifestações e protestos, a UNE não mobiliza, não discute, não luta pelo que supostamente defende. Por essas e por outras que, quando me convidaram para participar da Assembléia da ANEL, mesmo depois de alguma resistência, resolvi ir.
Os desafios da nossa viagem começaram com a concessão de um ônibus pela universidade. Foram enviadas 3 listas com os nomes de 45 alunos para a tal viagem a Maceió, que fica a cerca de 540 Km. A UFRN confirmou a concessão do ônibus, mas na hora da viagem enviou-nos um micro-ônibus com capacidade para 27 lugares (contando com o assento do passageiro e a cadeira de deficiente). A "sorte" é que 12 pessoas haviam desistido na noite anterior e o nosso deficit acabou sendo de apenas 6 lugares. Foi uma tentativa clara, por parte da reitoria, de fazer-nos desistir da viagem, uma vez que nosso caráter opositor já ficou mais que claro dentro da universidade. Entretanto, não seria tão fácil desfalcar nossa delegação. Fizemos uma vaquinha e compramos 6 passagens para mandarmos o restante do pessoal, sem sabermos como trazê-los de volta, ainda.
Depois de cerca de 9 horas de viagem (contando com duas paradas), chegamos a Maceió mortos de cansaço, mas cheios de expectativas. De imediato começamos a pensar no que poderíamos vender para pagar a volta dos nossos colegas. Vendemos o bolo de aniversário que a namorada de um dos meninos tinha feito, origamis e chocolates. As outras delegações fizeram campanhas financeiras pesadíssimas, vendendo rifas, doces, pipoca, bombons, bebidas e tudo mais que se imaginar, mas foram solidários com a nossa situação desesperadora e contribuíram com o que puderam.
Na manhã seguinte à nossa chegada, houve uma apresentação da entidade, de algumas executivas, de sindicados aliados e de representantes de alguns movimentos. Neste momento, uma fala sobre as cotas raciais foi a que mais me marcou, tanto pela eloquência da moça que falou, quanto pela minha divergência sobre o tema. Nunca defendi as cotas raciais e tinha imensa dificuldade de entender porque as pessoas defendiam. Nunca me convenci de que fosse uma boa medida para o nosso país. Entendo que o Brasil seja muito racista, mas não conseguia enxergar benefício algum na implantação de cotas raciais.
Logo após, durante o almoço, percebi que meus colegas da delegação de Natal, assim como eu, ainda tinham muitas duvidas sobre a questão. Esperávamos conversar melhor sobre elas nos grupos de discussão que aconteceriam durante a tarde. Infelizmente, no meu GD, a discussão girou mais em torno da greve e do fortalecimento do movimento estudantil nas escolas e nas instituições privadas. Confesso que a maneira como a assembléia está organizada me agradou bastante. Durante os GDs, qualquer um pode sugerir propostas para as ações da entidade no próximo período. Tais propostas são votadas na plenária final, por todos os delegados eleitos nas entidades de base, independente de já construírem a ANEL (CAs, DAs, DCEs, coletivos e afins).
À noite, nossa delegação se reuniu para um balanço sobre o evento e eu tratei de manifestar minhas dúvidas sobre as cotas, que foram medianamente sanadas por uma aluna de medicina da UERJ que falou do saldo da adoção da cota racial na sua universidade. A coisa toda começou a fazer um pouco mais de sentido.
Mais tarde, houve uma festa afro, mas confesso que não me diverti tanto. A música era legal e o pessoal estava super animado, mas vendo os amigos de T, eu só conseguia me sentir mais arrependida da maneira como o tratei. Eu fui criada num lar extremamente machista, estudei até a oitava série em uma escola de freiras e sempre convivi com um certo padrão de comportamento masculino. Criei uma certa ideia de submissão que se chocou com o tratamento que T me ofereceu. Eu não estava acostumada a ser TÃO respeitada como fui por aquele homem. Não entendia seu comportamento e julguei como algo ruim, como falta de jeito, como "moleza". Agora, depois que tudo passou, vejo o cara incrível que deixei passar. Tenho consciência de que deixá-lo passar foi fundamental para que eu reavaliasse meus critérios, meus conceitos e entendesse que, mesmo sem querer e perceber, fiz uma pequena bosta. É raro eu dizer isso, mas bate, sim, um tico de arrependimento. Isso não significa que vou chorar pelo leite derramado. A experiência passou, mas ficou a lição e é isso que eu devo levar adiante. É importante lembrar, mas sem me culpar.
Na manhã seguinte assistimos a uma palestra com Sara, uma manifestante síria, que veio ao Brasil para debater sobre a primavera árabe e a importância do apoio internacional. Não tenho palavras para expressar a emoção que as palavras daquela jovem de apenas 24 anos me causaram. Vê-la diante de mim, falar com ela, me fez perceber que as lutas daquele povo, embora geograficamente distantes, são muito próximas às nossas de hoje e de anos atrás. A luta pela liberdade não está só na derrubada de um regime autoritário, mas também na autonomia de poder escolher entre usar ou não um véu, de demonstrar afeto, de ser respeitado aonde quer que se vá.
Além da fala de Sara, um vídeo com imagens recentes da luta síria foi apresentado. Sabe aqueles filmes de guerra que mostram soldados ensanguentados, com os membros espalhados por todos os lados, muita poeira, bombas, tiros e afins? Então, imagine aquilo acontecendo de verdade, enquanto você dorme tranquilo no aconchego do seu lar. Eram pessoas comuns, algumas das quais nem costumavam se envolver com política, mas que estavam dispostas a lutar por sua liberdade e que, ao ver as primeiras gotas de sangue, perceberam que estavam ali para matar ou morrer pelo que acreditavam. Confesso que não sei até que ponto teria a coragem dessas pessoas, mas, naquele momento, me senti moralmente obrigada a apoiá-los, a me somar à sua luta o quanto pudesse. Ao final, cantei com os meus colegas: "A nossa luta é internacional: Brasil, Síria, contra o capital!" e "Síria, pode lutar, que a ANEL vai te apoiar!".
Depois do almoço, haviam duas oficinas: uma sobre mulheres e outra sobre negros. Embora me identifique bastante com a temática das mulheres, escolhi a oficina dos negros para entender melhor a questão das cotas. A partir da utilização de algumas dinâmicas e do discurso de colegas estudantes de outras universidades, consegui compreender o que a ANEL defende. Os negros não querem cotas, eles querem ter condições iguais de acesso à educação. Os negros não acreditam que as cotas forneçam tais condições, mas entendem que é necessário inserir (quase que forçadamente) os negros em certos meios. Na universidade, na engenharia, na medicina, na advocacia etc. Quantos negros engenheiros, médicos, professores universitários e advogados vocês conhecem? Eu conheço um professor universitário e um advogado. Nenhum engenheiro e nenhum médico.
A gente costuma dizer que não dá pra afirmar quem é negro e quem não é, porque praticamente todos os brasileiros têm ascendência africana, mas eu garanto que, se você não tiver a pele escura e o cabelo crespo não sofre discriminação na hora de conseguir um emprego ou de se relacionar na escola. Podemos ser todos negros por dentro, mas só quem é negro por fora sabe das dificuldades que é obrigado a passar. Precisamos nos habituar a conviver com cabelo "ruim" para pararmos de nos incomodar com isso. Quantas pessoas já me falaram para fazer um alisamento, ou mesmo um "simples" relaxamento, no meu cabelo? Não estou dizendo que quem deseja ter o cabelo liso não possa buscar tratamentos para deixá-lo assim. Só estou querendo saber porque o meu não pode ser cacheado, crespo, ruim, volumoso, assanhado. É o meu cabelo, é a minha cor, é a minha boca, é o meu nariz. A gente precisa aprender que o liso não precisa ser o mais bonito.
Muito do meu discurso caiu por terra depois das discussões que participei nessa viagem. Sinto um pouco de vontade de participar do congresso da UNE pra sentir como é. Vamos ver quem vai me convidar, hahaha.
Acredito que participar de qualquer discussão que envolva consciência e luta de classes perturba bastante. Particularmente, por eu cursar engenharia de produção, questões como essas me tiram um pouco o chão. A engenharia de produção foi criada para a burguesia extrair as últimas gotas do proletariado e, para mim, fica complicado entender de que lado eu estou de verdade. Eu, que sou educada para empreender, para dominar os meus de produção, ao mesmo tempo me sinto obrigada a me colocar ao lados dos trabalhadores que lutam por condições minimamente dignas de trabalho. O antagonismo é brabo! Fico um pouco perdida, mas hei de encontrar meu caminho, seja de um lado ou de outro.
Recomendo para qualquer ser humano participar de uma assembléia da ANEL e que venha o II Congresso!
Oi Liginha. Eu poderia dizer milhares de coisas aqui, mas neste momento, quero apenas que saiba que tenho orgulho de vc! Beijos
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