sábado, 25 de junho de 2022

[my] nature is healing

 Estava aqui assistindo à série documental da família de Gilberto Gil e me emocionei inúmeras vezes. Com as músicas, com as falas, com os gestos de carinho, com as lições do patriarca. Gil é mesmo luminoso e irradia a sua luz sobre toda a família. É muito bonito ver uma família se relacionando com tanta amorosidade, de ver que não existe distinção entre os laços sanguíneos e não sanguíneos, tudo é amor, tudo é afeto. 

Ver essa série, a terapia e o esforço de estar mais entre amigos ajudou a acalmar mais meu coração. Sabe quando você sente a ferida começando a se fechar, se curando de fato? É um pouco assim que tenho me sentido. 

Sei que tenho uma longa jornada pela frente e alguns cuidados a incorporar no meu dia a dia, para o resto da vida, mas sinto que um grande passo já foi dado. 

Fui a uma festinha de são joão em um bar perto de casa, mas só fiquei umas 2 horinhas, porque tinha outro são joão pra ir em seguida. Nesse meio tempo, houve um momento em que avistei aquela menina lá que fica me esculhambando pra metade da cidade. Fiquei meio nervosa na hora e logo saí de perto. Era justamente esse sentimento que eu queria evitar, quando tentei conversar com ela pra termos uma relação minimamente cordial. Natal é uma cidade muito pequena pra se ter inimizades assim, sabe? E particularmente me incomoda bastante ter esse tipo de relação odiosa com qualquer pessoa. Mas entendo que pra existir essa paz, as coisas não dependem só de mim. No geral, fico em paz com isso, mas na hora de encontrar ainda fica o desconforto.

A segunda festa já foi bem mais gostosa e divertida. Encontrei pessoas conhecidas, mas que não esperava ver, porque somos de bolhas bem diferentes. É muito bom fazer esse movimento de ir para lugares diferentes, encontrar pessoas que normalmente não conheceria. Dá uma renovada no espírito. 

Já o corpo, ficou só a carcaça. Voltei pra casa às 4h30 da manhã e ainda vim cedo, porque a festá só acabou mesmo às 8h. Povo animado, viu? Hahaha.


quarta-feira, 22 de junho de 2022

FIm.

A relação acabou em novembro, mas as lembranças ainda eram muito fortes. Eu sentia muita culpa por ter me permitido permanecer tanto tempo com uma pessoa que só estava comigo por conveniência. De lá para cá, comecei a olhar mais pra mim, para dentro, a me reconectar comigo mesma e com a minha espiritualidade. É sempre dentro de mim que eu encontro a força para seguir em frente.

Mas as lembranças continuavam invadindo a minha mente. Em alguns momentos, lembranças de felicidade, em outros, de mágoa. O problema é que eu não queria mais lembrar de nada daquilo, eu só queria seguir com a minha vida. 

Fui me isolando das pessoas, me fechando, perdendo a vontade de sair de casa, ao mesmo tempo que me forçava a focar na vida profissional para ter algum sucesso, alguma alegria, pelo menos nesse âmbito. Mas quando a gente tem algo mal resolvido, não adianta fugir. Algumas questões precisam de mais do que a nossa vontade para serem finalizadas e permitirem que o restante da nossa vida volte a andar.

Eis que me chega uma confirmação de algo que eu já sentia, mas que não tinha certeza, e me fazia sentir uma certa culpa. Eu não quero vilanizar as pessoas com quem me relacionei, porque eu sei que a imaturidade e a forma como somos ensinados a nos relacionar contaminam demais o nosso modo de agir em certas relações. Eu me sentia culpada por responsabilizá-lo por alguns comportamentos, porque ele me disse com todas as letras o que queria e o que não queria. Eu precisava, sim, dar atenção ao que ele estava dizendo, mas o que eu fazia com todas as atitudes que ele tinha que contradiziam aquelas palavras? Aí que está a crueldade da coisa. Você usa as palavras pra se desresponsabilizar pelo seu comportamento. 

Quem não quer um relacionamento, não aparece bêbado às 4h da manhã na sua casa; não viaja para praia com você; não te convida pra fazer crossfit junto com ele; não te leva em consultas médicas; não tem uma rotina na sua casa, com direito a escova de dente; não diz que te ama e te pede em casamento bêbado; não te apresenta as filhas e deixa a mais nova adormecer no seu colo; não te leva na casa dos seus pais numa cidade a 2h30 de distância; não te leva para a casa dos pais dele e eventos familiares. Quem não quer um relacionamento, não age como se estivesse em um, aproveitando todo o carinho, energia e tempo de uma pessoa sem se responsabilizar e se comprometer com nada. 

Eu não me culpo por ter me apaixonado, por ter me doado, por ter vivido como eu gosto de viver: com emoções intensas. Mas me culpo por ter ficado tanto tempo, mesmo sabendo que, maliciosamente ou não, ele manipulava a situação para continuar tendo tudo que eu tinha a oferecer sem se comprometer comigo.
E eu oferecia bastante, não poupava nada. Fui companheira para tudo que ele queria fazer, fui ouvinte atenta, fui um sexo ótimo, fui uma parceira para todos os momentos. Até a família dele me via como um porto seguro emocional para ele. E o que eu ganhei com isso? Ganhei a humilhação de meses depois me deparar com essa pessoa namorando outra mulher, mais magra e mais branca do que eu. Comprometido, com direito a post em rede social, oferecendo tudo aquilo que para mim ele não "podia" e não estava "pronto" para oferecer, porque queria passar um tempo "solteiro".

Além de me magoar profundamente, esse clichê também bate de frente com os meus valores. Todo mundo nessa vida já teve oportunidade de enganar uma pessoa exatamente dessa forma que ele fez comigo. Todo mundo já se viu na posição de gostar de alguém, sem querer se comprometer. Mas só gente babaca que, diante dessa situação, escolhe permanecer e alimentar os sentimentos do outro.
Muito mais do que ser altruísta e querer evitar (ou não postergar) o sentimento da outra parte, ir embora de relações assim é sobre ser honesto consigo mesmo. Essa capacidade de ser honesto diante de situações que nos beneficiam é algo que distingue profundamente as pessoas. Hoje é fácil perceber que o fim dessa relação foi um livramento, porque ele era alguém com quem eu não poderia contar para ser honesto comigo em determinados contextos. Mas a humilhação da enganação é algo doloroso.

Agora, depois de confirmar o que eu já desconfiava, mas me sentia culpada de pensar, sinto que estou mais leve e mais tranquila para seguir a minha vida, para que certas lembranças não invadam mais a minha mente. Quero aproveitar para voltar a sair mais, conhecer gente diferente, me divertir como há muito tempo não fazia. E que este momento realmente seja a finalização definitiva dessa história, para que minha vida saia dessa inércia.

domingo, 19 de junho de 2022

Talvez num tempo da delicadeza

 A 4 meses dos 30 anos me pego vivendo as consequências de mais uma relação fracassada. Mas fracassada mesmo, não daquelas que a gente consegue lembrar que foi bom enquanto durou. Enquanto durou, já não era tão bom. E ainda assim, lá estava eu.

Recentemente, comentei com a minha terapeuta que não sei muito bem em que momento dos últimos 7 anos eu me perdi tanto de mim. Parece que cheguei em um momento da vida que para seguir em frente tenho que olhar e resgatar bastante do que ficou lá atrás. 

Esse movimento é um pouco confuso, porque, ao mesmo tempo que já não ligo mais para uma caralhada de merda que me afligia anos 20 e poucos, também percebo que um lado mais leve e divertido foi embora junto com algumas pessoas que passaram pela minha vida. Em parte, elas me tomaram; em parte, eu dei de mão beijada.

A Lígia adolescente que começou esse blog tinha pavor da ideia de se amargurar, se endurecer demais com a vida, de desistir do amor e de se relacionar com as pessoas. Acho que não fui tão longe assim, mas eu realmente não tinha ideia do quanto as pessoas podem ser cruéis, egoístas, mesquinhas e manipuladoras. Também achei que seria um pouco mais fácil não trazer à tona tão facilmente o que eu mesma tenho de pior. 

Tem sido comum me surpreender comigo mesma, mas o que eu realmente não percebia naquela época é o quanto gostar ou desgostar de mim mesma influenciava nisso tudo. 

Parando pra pensar sobre isso, fica claro o quanto essa cultura machista é cruel. A gente cresce aprendendo a se odiar, a se desrespeitar, a se submeter, e por mais feminista que a gente seja, nunca vai ser possível se desvencilhar completamente dessa educação opressora.

Quando a gente vive uma relação muito ruim, com muita manipulação emocional, e a outra pessoa logo segue a vida como se nada tivesse acontecido, dá uma sensação de humilhação horrível. Eu sempre me orgulhei de "superar" rápido as minhas desilusões amorosas, mas tem certos tipos de relação que não são apenas desilusões, elas têm uma violência muito sutil, que faz vc achar que a culpa pelo seu sofrimento é sua.

Essa última relação, em específico, me colocou em um lugar de não saber exatamente o que fazer pra me curar dessa mágoa. Então, estou escrevendo aqui, só pra colocar pra fora mesmo. E fazendo terapia. E olhando mais pra mim - seja lá o que isso signifique. 

Esperando que a dor passe e que eu não me permita habitar certos lugares novamente.