quarta-feira, 22 de junho de 2022

FIm.

A relação acabou em novembro, mas as lembranças ainda eram muito fortes. Eu sentia muita culpa por ter me permitido permanecer tanto tempo com uma pessoa que só estava comigo por conveniência. De lá para cá, comecei a olhar mais pra mim, para dentro, a me reconectar comigo mesma e com a minha espiritualidade. É sempre dentro de mim que eu encontro a força para seguir em frente.

Mas as lembranças continuavam invadindo a minha mente. Em alguns momentos, lembranças de felicidade, em outros, de mágoa. O problema é que eu não queria mais lembrar de nada daquilo, eu só queria seguir com a minha vida. 

Fui me isolando das pessoas, me fechando, perdendo a vontade de sair de casa, ao mesmo tempo que me forçava a focar na vida profissional para ter algum sucesso, alguma alegria, pelo menos nesse âmbito. Mas quando a gente tem algo mal resolvido, não adianta fugir. Algumas questões precisam de mais do que a nossa vontade para serem finalizadas e permitirem que o restante da nossa vida volte a andar.

Eis que me chega uma confirmação de algo que eu já sentia, mas que não tinha certeza, e me fazia sentir uma certa culpa. Eu não quero vilanizar as pessoas com quem me relacionei, porque eu sei que a imaturidade e a forma como somos ensinados a nos relacionar contaminam demais o nosso modo de agir em certas relações. Eu me sentia culpada por responsabilizá-lo por alguns comportamentos, porque ele me disse com todas as letras o que queria e o que não queria. Eu precisava, sim, dar atenção ao que ele estava dizendo, mas o que eu fazia com todas as atitudes que ele tinha que contradiziam aquelas palavras? Aí que está a crueldade da coisa. Você usa as palavras pra se desresponsabilizar pelo seu comportamento. 

Quem não quer um relacionamento, não aparece bêbado às 4h da manhã na sua casa; não viaja para praia com você; não te convida pra fazer crossfit junto com ele; não te leva em consultas médicas; não tem uma rotina na sua casa, com direito a escova de dente; não diz que te ama e te pede em casamento bêbado; não te apresenta as filhas e deixa a mais nova adormecer no seu colo; não te leva na casa dos seus pais numa cidade a 2h30 de distância; não te leva para a casa dos pais dele e eventos familiares. Quem não quer um relacionamento, não age como se estivesse em um, aproveitando todo o carinho, energia e tempo de uma pessoa sem se responsabilizar e se comprometer com nada. 

Eu não me culpo por ter me apaixonado, por ter me doado, por ter vivido como eu gosto de viver: com emoções intensas. Mas me culpo por ter ficado tanto tempo, mesmo sabendo que, maliciosamente ou não, ele manipulava a situação para continuar tendo tudo que eu tinha a oferecer sem se comprometer comigo.
E eu oferecia bastante, não poupava nada. Fui companheira para tudo que ele queria fazer, fui ouvinte atenta, fui um sexo ótimo, fui uma parceira para todos os momentos. Até a família dele me via como um porto seguro emocional para ele. E o que eu ganhei com isso? Ganhei a humilhação de meses depois me deparar com essa pessoa namorando outra mulher, mais magra e mais branca do que eu. Comprometido, com direito a post em rede social, oferecendo tudo aquilo que para mim ele não "podia" e não estava "pronto" para oferecer, porque queria passar um tempo "solteiro".

Além de me magoar profundamente, esse clichê também bate de frente com os meus valores. Todo mundo nessa vida já teve oportunidade de enganar uma pessoa exatamente dessa forma que ele fez comigo. Todo mundo já se viu na posição de gostar de alguém, sem querer se comprometer. Mas só gente babaca que, diante dessa situação, escolhe permanecer e alimentar os sentimentos do outro.
Muito mais do que ser altruísta e querer evitar (ou não postergar) o sentimento da outra parte, ir embora de relações assim é sobre ser honesto consigo mesmo. Essa capacidade de ser honesto diante de situações que nos beneficiam é algo que distingue profundamente as pessoas. Hoje é fácil perceber que o fim dessa relação foi um livramento, porque ele era alguém com quem eu não poderia contar para ser honesto comigo em determinados contextos. Mas a humilhação da enganação é algo doloroso.

Agora, depois de confirmar o que eu já desconfiava, mas me sentia culpada de pensar, sinto que estou mais leve e mais tranquila para seguir a minha vida, para que certas lembranças não invadam mais a minha mente. Quero aproveitar para voltar a sair mais, conhecer gente diferente, me divertir como há muito tempo não fazia. E que este momento realmente seja a finalização definitiva dessa história, para que minha vida saia dessa inércia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário