Em fevereiro de 2009 criei uma conta no jogo de desenho online "Gartic" e comecei a jogar diariamente. Naquela época eu estava no terceiro ano do curso técnico no CEFET, tinha 16 anos e acabara de enfrentar uma certa crise existencial comum aos adolescentes (e ainda mais a uma escorpiana). Como o jogo ainda não era muito conhecido, os jogadores assíduos acabavam se conhecendo e se tornando amigos. Foi o que aconteceu comigo e Atticus. Em meados de julho começamos a conversar pelo msn e em setembro já éramos grandes amigos. Passávamos as tardes inteiras conversando de tudo e, claro, jogando. Desde o início a nossa relação se mostrou bastante intensa, talvez por ambos sermos assim, intensos, profundos. Ao contrário do que muitos pensavam, nunca houve qualquer interesse sexual entre nós. Acho que era exatamente isso o que mais me encantava na nossa amizade, era algo extremamente puro e fraternal, mas de uma intensidade que fazia inveja a muitos casais por aí. Entre nós não haviam segredos, não haviam meias palavras, não havia vergonha. Conhecíamos o melhor e o pior um do outro. Sei que estabelecer uma relação "virtual" é bem diferente de estabelecer uma "real", mas nós passávamos tanto tempo "juntos" e nos fazíamos tão presentes nas vidas um do outro que esse "detalhe" acabava passando despercebido na maior parte do tempo. Aos poucos, começamos a nos tratar por "irmão" e "irmã". Éramos, de fato, uma família.
Tudo isso me fez entender que a nossa relação estava para além desta vida, deste plano, deste mundo, que para o que nós sentíamos e vivíamos juntos não havia explicação, nem regras, nem comparações. Éramos irmãos de alma. Somos irmãos de alma e seremos sempre, independente de qualquer coisa que nos aconteça.
Em poucos meses de convivência ele me ensinou mais sobre respeito, honestidade, comprometimento, determinação, gentileza, educação, amor, carinho, amizade, família, relacionamentos, palavras e sentimentos do que qualquer outra pessoa que já conheci até hoje. De natureza extremamente cativante e um tanto quanto explosiva, ele conquistava com a maior facilidade qualquer um que estivesse por perto. Por causa disso e da minha forte intuição, acabavam surgindo alguns conflitos envolvendo terceiros. E que conflitos. Assim como nosso amor, as nossas brigas também eram muito intensas. Quantas lágrimas já derramei por ti, irmãozinho? Quantas rugas você já me deu! Felizmente, cedo ou tarde, acabávamos fazendo as pazes, até porque a saudade não nos permitia passar muito tempo afastados um do outro.
Agora, a parte triste.
No mesmo mês que o conheci, ele recebera o segundo diagnóstico de um câncer no estômago. Aos dezessete anos a doença apareceu e devastou sua vida. Ele precisou retirar um terço do estômago e, por causa do tratamento extremamente debilitante, passou algum tempo usando cadeiras de rodas e teve sequelas irreversíveis nas cordas vocais, que impossibilitaram sua fala pelo resto da vida.
A maioria de nós nunca parou para pensar nisso, mas vocês já se imaginaram sem poder gritar de raiva ou alegria? Pois é. Quantas vezes o vi reclamar de não poder fazer uma coisa que para a grande maioria das pessoas é tão simples e que para ele também o foi um dia.
Ainda por causa do tratamento, ele teve que largar a faculdade de medicina, para a qual acabara de passar e, definitivamente, foi obrigado a começar uma nova vida. Qualquer menção ao que ele viveram aos 17 anos era extremamente doloroso, por isso, eu só descobri o drama que ele vivera, e estava revivendo quando o conheci, entre outubro e novembro de 2009.
Foi aí que eu comecei a conhecer o câncer, que para mim, é o mal do século. Uma doença que DEVASTA a vida do paciente em todos os aspectos possíveis.
A maioria de vocês não deve saber o quão angustiante é amar tão profundamente uma pessoa, conversar com ela TODOS os dias durante horas e, de repente, vê-la debilitada, digitando com dificuldade, cansado, abatido. Coisas que muitas vezes não são percebidas quando se está a mais de 800km de distância, mas que para nós ficava tão claro. Ver um jovem extremamente inteligente, com apenas 24 anos, enfrentando uma doença como aquela é torturante, mas eu precisava, a todo custo, me manter forte. Não podia demonstrar, de forma alguma, que estava abalada com a situação e, por vezes, acabava parecendo fria, dura. Embora estivesse com o rosto inchado de tanto chorar, com as lágrimas pingando no teclado, eu lhe enviava palavras de carinho, motivação, força e fé, muita fé. Só tendo muita certeza de que ele iria melhorar para me manter firme ao lado dele.
Nessa época, minha mãe ficou bastante preocupada e até pensou em me proibir de falar com ele, porque via que a situação me prejudicava, mas ela logo percebeu que não saber como ele estava acabava sendo muito pior para mim.
Assim, se passaram alguns meses e, por causa de problemas amorosos, ele desistiu do tratamento em duas situações. Na primeira, porque havia tentado se matar. Tomara uma caixa de comprimidos que sabia que fariam muito mal ao seu estômago. Passou cerca de um dia em coma, mas retornou sem sequelas e, meses depois, retornou ao tratamento. Na segunda vez, ele simplesmente estava com medo das consequências da quimioterapia. Por tudo que havia passado e por tudo que queria viver, ele estava muito receoso de voltar àquela terapia. Durante este tempo, porém, ele se cuidava bastante, fazendo exercícios físicos, se alimentando corretamente e evitando excesso de trabalho e estudo. Mesmo se cuidado assim, o câncer ainda estava lá e não demorou a dar as caras. Logo ele precisou fazer outra cirurgia e sumiu da internet. Passamos a nos falar apenas por SMS, mas com pouca frequência. Muitas mensagens sequer eram respondidas e, por não gostar de falar na doença, eu apenas conseguia me inteirar de seu estado através de sua família e namorada. Há algumas semanas os familiares dele pararam de me responder e a sua namorada desativou o facebook. Agora, estou sem notícias dele e, sinceramente, não sei mais o que fazer.
A maioria dos meus amigos não sabe de metade dessa história, mas, ultimamente, a saudade vem me tomando de uma maneira que deixa difícil esconder o abatimento.
Nunca, em todos os meus 20 anos, eu conheci uma pessoa como ele. Nunca tive uma amizade sequer comparável a que tive com ele. Nunca tive tanta liberdade com uma pessoa em toda a minha vida e, caralho, isso faz muita falta.
Vocês podem especular, tentar imaginar, mas só nós dois, que vivemos tudo isso, saberemos o quão significante foi essa história e o quanto fazemos falta um pro outro.
Um dia, quando ele estava muito mal, ainda em 2010, ele me fez prometer que, se morresse, eu só contaria isso para nossos outros amigos uns três meses depois. Que eu deveria dizer a todos que ele estava viajando e que demoraria um pouco a voltar. Na hora, eu pedi que ele deixasse de conversa besta, mas prometi que o faria, embora tivesse certeza de que jamais seria necessário.
Hoje, quando penso nisso, acho que o afastamento dos ultimos meses pode ter significado uma espécie de preparo, de tentativa de mantê-lo vivo para sempre nas nossas lembranças, uma vez que nunca houve um adeus concreto. Sim, hoje, eu penso que talvez ele não esteja mais vivo e que talvez eu nunca lhe dê aquele tão sonhado abraço. Não é fácil pensar nisso, por isso procuro evitar essas lembranças e essas ideias, mas nem sempre a gente consegue. Hoje foi um dia em que não consegui viver sem você, irmãozinho.
Torço para que você esteja sempre bem e muito feliz, onde quer que seja.
Abaixo, colarei uma mensagem que ele me deixou no Gartic, com o nick de Japinha, quando eu fui passar alguns dias na praia, nas férias de 2010.
japinha (11/01/10
13:36:02):
Então...
Tenho uma tarefa difícil e fácil para realizar.
Além de tentar definir o que você é para mim e mais algumas coisas, terei que compartilhar esse sentimento publicamente, e, fique sabendo, não é algo que faço todo dia. Mas quando o faço, é muito sincero.
Eu conheço um lado da Lígia que poucos, pouquíssimos conhecem.
Ela é a amiga perfeita. Por ser perfeita, dispenso comentários.
Pelas outras qualidades, pelos outros defeitos ocultos, revelarei o que de podre há nesta garota (6)
É extremamente emotiva. Não é 8 nem 80. É 800. Então se ela está triste, realmente está. Se está feliz, não há quem não fique também.
Triste? Quem não fica, não é? O que me deixa encantado é que poucos como você são sinceros e se expressam tão bem. Não é feio ser o que a gente é. Feio mesmo é não ser nunca o que se esforça para aparentar.
Feliz? Alguns momentos de felicidade acontecem na vida da gente. Vem e vão, duram segundos, duram horas. Dividir esses momentos felizes contigo é se sentir feliz também.
Não há meias palavras entre mim e ela. Rola de tudo. A conversa flui, flui, flui. E pode crer, até no que você não tem coragem de falar, nós conversamos. ;*
Há silêncio. É o tempo que os dois precisam.
Não se importa com avaliações, mas se importa muito com aqueles que esperam alguma coisa dela. E eu digo mais uma vez: o importante é você.
Não é muito clara em certos assuntos e eu senti dificuldade com isso. Mas com o tempo aprendi a esperar. E digamos que foi onde aprendi a ter paciência.
Tem um sorriso lindo. E tem mesmo.
Tem uma personalidade forte. E eu só lamento por quem perde sua amizade, porque perde para sempre.
É pagodeira, forrozeira, sertaneja e bregona. HAHA, ok, mentirinha. Não podia ficar tão sério até aqui. Só sei que tem um excelente gosto musical e gosta de quase tudo que eu gosto. *-*
Tia Dri: é muito carinhosa.
Mainha: "que dedicada a você".
Clarinha: "é a Lija, Quinho?"
Lígia cuspindo no microfone: Pinha, Pinha, Pinha!
Muito obrigado pelo dia que te conheci. Se existisse algo além de obrigado melhor pra dizer o quanto sou grato por ter você comigo, eu diria... Mas faltam poucos dias pra te dar aquele abraço e puxar os seus cabelos, apertar a mão de painho e dar um beijo em nossa mainha *-*
Amo tanto você irmã, e amarei pra sempre porque muitos aqui querem ter algo real, seja amizade ou namoro, e eu sou o mais sortudo porque eu tenho uma amizade real e verdadeira. *________________*
Apelidos que o Japa criou e ganhou mundo:
Lija; Tabaca Seca (vulgo TS); Maria Preá; Rodo de bueiro; Infeliz das costa oca; Djabo. E aviso logo que assim como o ano novo chegou, novos apelidos virão. KKKKKKK
Volte logo, por favor. Faz falta. :~
AMO <3 span="span">3>
Oi Liginha.
ResponderExcluirAo ler sua história, seu excesso de preocupação com ele se tornou tão compreensível. Eu não sabia disso e achava um exagero. Peço desculpas e imagino o qual terrível deve ser estar no auge da vida e ter que conviver com o risco iminente da morte e com uma doença que definha a pessoa.
Que chato! =(
Ao mesmo tempo, lembrei de amizades tão intensas que viví na minha época, dos papos intermináveis, das risadas na frente do pc que ninguém entendia e da liberdade para abrir o coração que hoje em dia ninguém mais tem....
Queria muito voltar a ser capaz de rir de coisas bobas, passar madrugadas em claro e rasgar minha alma ao lado de alguém.
E aquele anseio pelo tão prometido abraço????
Espero de coração que você tenha notícias. Boas notícias a respeito dele. E se quiser alguma ajuda, eu verei o que poso fazer, dentro da medida do possível.
Beijos lindona.