quarta-feira, 27 de março de 2024

Temporada de eclipses: entre eclipses - meu bem querer, meu encanto

 A sensação é de ter levado mais uma rasteira da vida. Não que estivesse - ou fosse - tudo perfeito, mas existia amor, felicidade, verdade e uma conexão profunda, sim. Aquele momento aqui no meu sofá, de reconhecimento pleno e genuíno de espíritos, não tem como ser esquecido, vai ficar marcado como acredito que essas almas já se marcaram mutuamente em outro momento da existência. Tem momentos que são assim, a gente apenas sente o que são, não consegue explicar, significar, só sentir profundamente de uma maneira que poucos encontros na vida são capazes de proporcionar.

Mas a conexão não era a única coisa que me prendia ali. Havia também muito futuro possível, muito potencial de vida, de parceria. Pelo menos, do lado de cá, era assim que eu enxergava. Ou enxergo, ainda. Não tenho mais tanta certeza. Porque quando algo se parte assim de forma meio inesperada, é difícil continuar tendo algumas coisas como certas. O que tenho de mais certo são a conexão e o sentimento, isso sei que é inegável, porque se sentia no ar, se notava na nossa expressão, na nossa fala, no nosso olhar para o mundo. 

Acho que já cheguei a falar em outro momento, por aqui mesmo, que amar não é suficiente. É imprescindível, é preenchedor, é excitante, mas não é tudo. Talvez o amor só seja suficiente na adolescência ou nas paixões não correspondidas; porque ali, tudo, ou quase tudo, parece se resumir ao sentir. Não é melhor nem pior, só não tem sustentação, base, estrutura para ser longevo e saudável.

Depois de um certo ponto da jornada, a gente valoriza mais a segurança, o compromisso, a lealdade, o compartilhar do dia a dia, estar mais presente nas segundas do que talvez nos sábados. Isso é que eu não sei se você queria tanto assim. Talvez não quisesse agora. Talvez não quisesse comigo. No final, não faz muita diferença se pelo momento ou pela pessoa, o importante é o não querer. Por isso que no início daquela conversa tão dolorida, uma das minhas primeiras perguntas foi sobre o seu querer. Não havendo vontade, não há sentido pra muita coisa além. Porque eu posso suportar a distância, a falta de tempo, a necessidade de focar a energia em outros aspectos da vida, mas nunca a falta de vontade. Se o amor é um ato de vontade, é a vontade que faz a distância, a falta de tempo e qualquer outro tipo de sacrifício ser suportado. Aliás, só soa como sacrifício e exige esforço de superação quando existe a vontade da presença.

Não sei direito quem se comunicou mal naquela conversa específica. Provavelmente, os dois. Você por tudo que não disse, eu, por me precipitar a preencher os seus silêncios. Tem hora que não suporto mesmo os silêncios e tento preenchê-los a todo custo - e que custo. Mas não dá pra dizer que tudo se deu como se deu apenas por isso. Não dá para culpar as palavras pelo que se estava sentindo. Elas podem refletir de uma maneira um pouco equivocada, confusa, mas naquela conversa não teve manipulação, dissimulação. Pode não ter sido da melhor forma, mas o que foi falado estava sendo sentido.

Não sei se você é capaz de entender o quanto me dói rever aquela conversa e perceber a falta de querer. A incapacidade de repetir algo que você mesmo foi o primeiro a manifestar. Eu também não tenho muita compreensão do porquê dessa história se repetir. Nem sei direito se é mesmo uma repetição, porque apesar de a dor, a decepção e a sensação de inadequação serem as mesmas, desta vez eu não sinto que agi como antes. Com certeza, fiz mais do que me cabia, quis mais do que me queria, fui mais intensa do que se previa. Ainda errando um pouco na tentativa de estar mais atenta, de não caminhar pelo outro, de não fazer além do que me cabe. Mas certamente muito mais consciente que antes, tentando achar um equilíbrio entre não me fechar completamente e não ultrapassar o espaço do outro. O que pouco se fala sobre a busca do equilíbrio é que a gente acaba tendendo aos extremos. Como um pêndulo, que para se centrar, vai de um lado ao outro. É necessário paciência e, novamente, vontade.

Não posso falar muito sobre o que você sente, eu sei. Estou tentando colocar pra fora o que me chegou sobre o que você sente. Falar que não retira o que disse é profundamente diferente de reforçar o que foi dito. Não desdizer não é dizer, é, no máximo, lembrar que foi dito. Isso me doeu. Por que de repente se tornou tão difícil falar o que já foi dito antes, com tanta sinceridade? Eu só tenho uma explicação pra isso.

Sei que teremos ainda outra conversa - pelo menos uma - na qual poderemos olhar para tudo isso com um outro olhar. Sinto que tenho tanto pra colocar pra fora, e por isso escrevo aqui, para derramar um pouco todo esse amontoado de sentimentos e pensamentos que não quero levar para nosso próximo encontro. Lá, quero mais ouvir e tentar entender o que não ficou claro antes. Nem de longe me sinto preparada pra isso, pra te ver sem chorar, pra ouvir e falar sobre essa dor, para a possibilidade de te ver cortando esse último fio que nos une. Mesmo que seja eu quem decida cortar esse fio, não me sinto pronta sequer pra falar muito sobre isso.

Como doem os amores não vividos. Como pode ser cruel a sensação de perda de algo que nem chegou a existir em sua plenitude. Que marca profunda o "não ser" pode deixar na gente.

Quando olho para os gestos de carinho que te direcionei, os presentes, as bobagens com ares adolescentes, me sinto ao mesmo tempo desolada e feliz. Feliz por ter me permitido, por ter sido, por não ter escondido esse meu lado mais amoroso, leve, e generoso. Mas se antes esses objetos, palavras e atitudes eram um lembrete do amor, agora são uma recordação triste de tudo que já não é, tudo que já não somos. Escondo aquele coração no fundo da gaveta por isso, para evitar lembrar, pra evitar sentir novamente o tamanho daquele sentimento tão bonito.

Me comprometi e mantenho o compromisso comigo mesma de guardar tudo isso até que a tal conversa aconteça, mas uma parte de mim já tenta se libertar, porque sabe que eu não mereço essa incerteza, essa falta, esse desamor. Eu sou maior do que o espacinho que você reservou pra mim na sua vida e não vou me diminuir pra caber ali. Devo isso a mim, a quem veio antes e a quem vem depois. E quando a minha filha nascer, quero que aprenda com o meu exemplo, com a minha força, com a conexão que existe com as nossas ancestrais. Para isso, eu preciso me escolher primeiro, me fortalecer primeiro, honrar e respeitar a minha essência, a minha intensidade, a minha sensibilidade e a minha força. É o meu destino carregar tudo isso, mas na mesma medida que essa sina me escolheu, eu a escolho de volta. Eu amo e valorizo a força do meu sentir, a intensidade e a profundidade do meu ser, a robustez e a longevidade das raízes que me sustentam e conectam com a natureza mais sagrada desse existir. Esse meu amor e essa minha conexão são muito maiores que eu e você, são eles que me permitem te reconhecer em alma e ainda assim perceber que não existe só você, que não existe um só caminho para a minha felicidade. Já te disse antes e repito agora: não precisamos um do outro. Eu não dependo de você para nada e por isso que o meu amor é tão forte, porque nasce de um reconhecimento, mas floresce na vontade pura e genuína, na admiração e no respeito.

Não sinto que a intenção do universo em te colocar na minha vida, e eu na sua, tenha sido uma lição sobre livre arbítrio. Acredito que foi de fato um presente, uma oportunidade de viver algo que pedimos tanto à vida, que desejamos tão intensamente. O que aconteceu ou deixou de acontecer a partir desse encontro já não é mais responsabilidade do universo, é nossa. Foi o nosso mal agir e mal falar que colocou essa parede entre nós. Foi a falta de paciência e de vontade que nos colocou nesse lugar. E só cabe a nós dois sair.

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