terça-feira, 16 de abril de 2024

Eu confio

Vejo umas leituras que dizem que você está triste pelo nosso afastamento. Não sei se acredito. Não sinto isso de nenhuma maneira. Mas também não sei se esse não sentir tem a ver com a nossa desconexão, porque me sinto, sim, cada dia mais conectada com o meu futuro, sem você. Um futuro em que você já não habita mais a minha mente e o meu coração. Diria que o que sinto hoje é mais apego e a verdade da conexão que existiu. Verdade nem é sentimento, mas aqui é como se fosse, talvez por falta de nome melhor.

Eu ainda fico achando que sei a sequência dos fatos na sua vida: seu primo vai te decepcionar, você vai finalmente enxergar que não vale a pena ficar próximo de alguém que te inveja; você vai ganhar consciência de tudo que já aconteceu entre vocês e até da influência que ele pode ter tido sobre a nossa história; aos poucos sua mente vai ficando mais clara, calma, e você vai conseguir ouvir aquela voz interna que te guia; aí você vai começar a entender que o que fez comigo não foi justo conosco. Não sei se você vai sentir falta, lembrar de como eu te via e te incentivava a ser sua melhor versão, o tamanho do amor e do cuidado que eu te direcionava. Quando lembro desse amor, ainda me emociono um pouco, mas cada vez menos. Me emociono porque foi muito verdadeiro e intenso, e eu vejo muita beleza nisso. Me orgulho e me admiro por ter me permitido sentir tudo isso, por ter ousado ser eu mesma de forma tão intensa. 

Não demorou para você perceber o quanto eu sou sensível, mas talvez a sua interpretação de sensibilidade fosse um pouco limitada. Ser muito sensível não significa apenas se sensibilizar facilmente com as coisas. Significa, sim, estar aberta a perceber com os sentidos aquilo que vem de fora, da sensibilidade do outro. Mas também significa sentir profundamente. Foi com essa sensibilidade de sentir lá no fundo que eu enxerguei a sua alma. Eu soube te amar pela sua alma, pelo seu corpo, pela sua voz, por todo o teu ser. Não sei se você já foi visto como eu te vi, porque eu te enxerguei com os olhos da minha própria alma, não só com os olhos da matéria. Não sei se você entende a dimensão disso. Não sei se você entende a raridade de um encontro assim. Por entender tudo isso muito antes de você, eu sofri tanto com a sua decisão. 

Não sei se você vai chegar a ver as coisas como eu vejo e muito menos se vou ter a oportunidade de saber isso, mas por ora confio no que eu sinto. 

Acho que eu não consigo acreditar que fiz um mau julgamento de você, porque isso seria desacreditar da minha sensibilidade. Se foi a própria espiritualidade que me afastou de você, depois das escolhas que você fez para a sua vida, é um sinal de que ela nunca me abandonou, nunca esteve distante de mim, e permitiu o nosso encontro. Com tudo que eu já aprendi até aqui, não consigo enxergar outro propósito para o nosso encontro, senão o de ficarmos juntos e crescermos juntos.

Mesmo acreditando profundamente nisso, meu coração está sereno. Acho um pouco triste, sim, o rumo que a nossa história tomou, mas essa tristeza não mora em mim, apenas me visita rapidamente, como uma lembrança. Tenho esse coração sereno, porque maior e mais bonito que o amor que senti por você, é o meu vínculo com a espiritualidade. O meu compromisso com esse aspecto da minha vida é o meu maior norte, nesse momento. Eu ainda sou falha nessa caminhada, tenho lá minhas dúvidas e dificuldades pelo caminho, mas tenho muita devoção, amor e fé nessas energias que me guiam, porque foi com elas que encontrei sentido, propósito, foi me fiando nelas que aprendi esse ofício de tocar o coração das pessoas para o bem.

Foi esse compromisso comigo mesma, essa vontade de me reconstruir para continuar esse trabalho, que me fez te encontrar. Foi também o compromisso deles comigo que me fez te perder.

Porque quando eu digo, com fé, que lhes entrego meu destino, reafirmo à minha própria alma o compromisso com as escolhas que me fizeram ser quem sou, nascendo como nasci, naquele momento, naquela família, em torno daquelas pessoas. Meu coração fica sereno, porque quando confio que a espiritualidade te trouxe, automaticamente confio que ela te tirou de mim. 

Por maior que seja a dor de não viver um amor prometido, eu confio.

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